Artigo: O Peixe e o Valente

Notícia: 53ª Semana Mineira de Folclore
23 de agosto de 2019
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Artigo: Folclore
30 de agosto de 2019
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O Peixe e o Valente

Raimundo Nonato de Miranda Chaves

Cemitério do Peixe, 15 de agosto de 1935, foto histórica, propriedade de Celso Rodrigues Vieira, comerciante em Gouveia e produtor rural na comunidade do Tigre. Celso, sorriso fácil, conversa solta, contador de causos, admirador de Genaro, de quem conhece toda a história, mas, sempre acrescenta, com humildade, que conhecedor de verdade da história de Genaro é Luiz Rodrigues.

Luiz Rodrigues, nós o conhecemos, hoje, próspero fazendeiro estabelecido nas margens do Rio Congonhas, em outros tempos, conceituado caçador de onças lá pelos lados da Serra Talhada. Aprendeu com o avô materno o conhecido Luiz da Serra. Mas, isto foi há muitos anos, quando o poderoso felino ainda não era bichinho de estimação dos ambientalistas.

A foto: de paletó e gravata, o elegante delegado de policia; orgulho e pose que lhe conferem o status de poder maior. De farda militar e chapéu, o indômito sargento Ozório, representante da brava e respeitada corporação dos Caçadores Mineiros. Sargento Ozório era genro de Canequinha – o homem que criou a romaria de São Miguel e Almas –, rico proprietário da fazenda do Vassalo.

Casado com Ritinha? — É pode ser! Mas, em primeiras núpcias. Aos oitenta e três anos Ozório se casou novamente com Eufrasina, neta de Canequinha, moçoila ainda, que, certamente, suava com o calor dos desejos, enquanto o ancião dormia. Biologicamente frustrada, mas, economicamente realizada, no presente e no futuro, com a valiosa pensão que lhe garantia aquele casamento.

À esquerda e à direita, dois Praças, posição de sentido e fuzis à mão, como deve se mostrar o brioso policial. O último militar, de braços cruzados, pose semelhante ao sargento chefe do grupamento, talvez seja um Cabo. Finalmente, em trajes civis, ladeado pela guarda de honra, a figura mais importante de nossa história: Genaro.

Genaro, figura histórica na região, contarei dele, agora, os causos que me foram relatados por Celso e, uma segunda etapa, quando me encontrar com Luiz Rodrigues. Genaro se encontrava em pequeno barraco na margem do Rio Cipó, noite quase clara do sertão, lua em quarto crescente. Quando o barraco foi cercado por policiais, lídimos representantes da famosa corporação conhecida como Caçadores Mineiros; era mais um encontro com Genaro. Genaro, homem primitivo, narinas sensíveis, forte característica animal – nariz mais sensível do que os olhos –, percebeu odor entranho. Raciocínio rápido, como um Charles Chan sertanejo, falou para si mesmo:
— eu num peidei aqui, galinha num cagou aqui! Aqui tá fedeno, Ih! Sei lá!
E, elevando a voz, continuou
— Vou encher minha cabacinha dágua e vou durmi.
O comandante dos praças ordenou, quase sussurrando,
— Fiquem quietos! Vamos aguardar até ele dormir.
Genaro caminhou, descansadamente, até o barranco e, com agilidade, saltou para dentro do rio. O praça, atento, percebeu a manobra, correu para junto do rio, levando consigo seus companheiros. Genaro, experiente, sabia que não haveria tempo de fazer a travessia e se movimentou junto ao barranco, protegido pela vegetação e se apoiando nos galhos de ingazeiros que, da margem se projetavam sobre as águas do rio Cipó. Assim, Genaro venceu a correnteza e atingiu o remanso na curva do rio, de onde, mais atento, observava seus perseguidores através dos ramos; a tropa, como é natural, procurava-o na direção rio abaixo, esperavam que a correnteza o arrastasse. Exceto um deles. O mais inteligente? Talvez o mais idiota, observava, caminhando lentamente rio acima. Genaro sentiu que seria descoberto, pouca luminosidade, mas bastante para identifica-lo, se visto de perto. Então, com sagacidade, imaginou um plano para distrair o Praça; Encontrou, ali, um tronco de madeira, possivelmente trazido pela correnteza, talvez um grosso moirão de cerca, ainda com algum pedaço de arame pregado nele. A origem do tronco era o menos importante. Determinado, desgarrou o tronco dos galhos de Ingazeiro e o empurrou para a correnteza. Aquela peça salvadora deslizou na correnteza, logo o praça, enganado, atirou nela, no que foi seguido pelos demais militares. Genaro observava, atentamente, percebeu que um tiro havia atingido a peça de madeira fazendo saltar uma grande lasca, naquele exato momento e, instintivamente, soltou um grito de dor, em seguida o grito de vitória:
— Morre cangaceiro!
E, ouviu, em resposta, a gargalhada do primeiro, seguida dos demais praças. Sua tática havia funcionado. Depois de algum tempo, Genaro, tranquilo, atravessou o Rio Cipó. Molhado, com frio, e, injuriado, imaginando que aqueles que o perseguiam deviam, agora, estar aquecidos no seu barraco, possivelmente, comendo seu queijo com rapadura, talvez tenham encontrado a garrafa de cachaça e a carne seca.
Em Conceição do Mato Dentro, alguns dias depois, o tenente, chefe do destacamento, ouvia o relato da expedição. Uma das perguntas dele:
— Quem gritou: Morre Cangaceiro?
Os militares entreolharam, cada um acreditava que fosse o outro e nunca haviam falado a respeito. Ninguém respondeu. A dúvida se instalou no cérebro do tenente. Genaro se safou desta e continuou por aí, de Fechados a Capitão Felizardo, às vezes na Mandaçaia, outras vezes no Tombador. Uma falcatrua aqui, uma briga acolá, um pequeno furto no Cipó, outro maior nas Contendas. Genaro vivia cada dia, hoje, decidiu roubar a besta dourada, de nome Duquesa, propriedade de Betinho Rodrigues. Ele roubava animais para fazer catira e os de qualidade eram ganho certo. Betinho residia na margem direita do rio Paraúna, próximo e pouco acima da foz do Córrego Sepultura, na Mandaçaia. Duquesa era a besta de sela e o orgulho dele, não havia outro animal igual nas proximidades. Nem João Baiano, mais rico e mais poderoso, proprietário de outra besta de nome, também, Duquesa e cor pelo de rato, competia com ele. Mula muito alta, cor baia claro, descanelada, marchadeira, andava trocando as orelhas, isto é, movendo as orelhas, alternadamente, para frente e para trás; característica de animal ágil e atento aos ruídos, vindos de todas as direções.

Genaro, experiente, planejou tudo: Noite clara, encontrou a Duquesa, com outros animais, na areia do rio Parauna, aproximou-se com cuidado, levando seu cavalo bem próxima de si, e, com habilidade conseguiu por-lhe o cabresto. A Duquesa era sua. Agora, atravessar o rio Parauna, descer a Serra, atravessar o córrego do Bicho e continuar até as margens do rio Cipó. Calculava chegar lá, ainda, à noite; não deveria ser visto com a besta, conhecida nas redondezas. No Cipó, descansaria durante o dia e à noite rumaria para Santa de Pirapama, onde a venderia por bom preço.

O senhor Betinho, irado e inconformado com o roubo da Duquesa fez lá suas diligencias e tudo levava a crer que fora Genaro o autor da trapalhada; então, falava alto e bom som que, encontrando Genaro, daria um tiro nele.

Tempos depois, comunidade de Capitão Felizardo, tradicional celebração de São João, o povo aglomerado em frente à Igreja. Genaro avista Betinho Rodrigues que trazia revolver na cinta, bem baixo, apoiado na coxa direita. Não se atemorizou, sorridente, se encaminha em direção a ele. Cumprimenta-o, alegremente, e diz: — Senhor Betinho que beleza de revolver. Revolver como este só homem rico como o senhor pode possuir.
Betinho, vaidoso, estimulado por Genaro, saca o revolver, segura-o pelo cano e o oferece a Genaro para examina-lo com calma. Genaro, sempre sorrindo, recebe a arma, abre o tambor, retira as balas e as segura com a mão esquerda, bate, lateralmente, no tambor e o faz girar, examina o cano, comenta sobre as estrias em perfeito estado de conservação, e, fala:
— calibre 38, cano longo, Smith e Wesson, cabo de madrepérola, bem lubrificado e pouco usado. Uma joia senhor Betinho. Enquanto falava, Genaro coloca, novamente, as balas no revolver, o aponta para Betinho e fala:
— Então, senhor Betinho! Você disse que me daria um tiro no nosso primeiro encontro! Será hoje?
Betinho naquela saia justa, sem saber como responder, mas, Genaro não era assassino. Segurou o revolver pelo cano e o ofereceu ao Betinho, nesta altura, mais branco do que menino de apartamento, disse, calmamente:
— Senhor Betinho! Dou-lhe sua vida pela sua mula baia! Estamos quites.
Deu as costas e saiu tranquilamente.
Assim era Genaro, filho de Pedro Satú, mas, no dia 15 de agosto de 1935, lá no Cemitério do Peixe o anjo da guarda cochilou e o sargento Ozório, o genro de Canequinha, botou as mãos nele. Genaro era previdente, ele sabia orações de São Cipriano, trazia consigo amuletos dos Orixás mais poderosos, aprendera mandinga com Pedro Satú. Naquele dia 15 de agosto, no entanto, nada o pode salvar de Ozório. Ele foi preso. Perdeu a liberdade, mas não perdeu a arrogância e falava, para quem quisesse ouvir, que no mês de setembro estaria de volta, precisava plantar sua roça.
Sargento Ozório, seu lugar tenente, os dois praças e mais o delegado gozaram, naquele dia, momentos de gloria, haviam aprisionado o facínora; permitiram que todos o vissem, depois, seguiram viagem para a sede do município: Conceição do Mato Dentro. Pernoitaram em um sitio, nas proximidades de Ouro Fino, ali, exigiram do proprietário um quarto sem janelas, para alojar o prisioneiro. Dormiram no paiol de milho, duas camas para os praças e, entre elas, sobre uma enxerga colocada no chão, deitou-se Genaro. Todos, cansados da jornada e seguros de sua força, relaxaram e dormiram profundamente. Genaro estava preparado, ele previra os acontecimentos, e, levantou-se, silencioso como um gato, apanhou os dois fuzis e, já fora do paiol de milho encheu de areia os canos das armas, inutilizando-os completamente. Montou no pelo de um cavalo que pastava por ali, e, ainda, levou o cantil de um dos praças. Não que precisasse de água, farta em toda a região, mas o cantil era o seu troféu. Genaro voltou, tranquilamente para o seu barraco. Ele sabia que a tropa, desarmada, não o procuraria naquele e nos próximos dias, e, se o fizesse seria em outros lugares que não sua casa, pensavam que ele não poderia ser tão ousado.
Para terminar:
Entrou no bico do pinto.
Saiu no bico do pato.
Causos, contei três.
Agora, você conta quatro

26/03/2013 - Guido Araujo
Dr. Raimundo, bela a história a do Genaro, contada com arte e por quem conhece a região e seus mistérios. Está faltando a história do Batica. Este Batica tinha um grupo. Alguma coisa dele deve estar registrada em Datas ou Diamantina, embora tenha vivido nos termos de Gouveia. Meu pai contava que, quando ele chegava nas festas de casamento, acabava com tudo. Punha os noivos para servir o jantar para servir o jantar para ele. Recomeçava o baile e punha o povo para dançar, cantando: “esta faca de Batica/ é de quem é/ e todo mundo respondia: “da barriga dos homens e das muié”

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Cemitério do Peixe, 15 de agosto de 1935, foto histórica, propriedade de Celso Rodrigues Vieira, comerciante em Gouveia e produtor rural na comunidade do Tigre. Celso, sorriso fácil, conversa solta, contador de causos, admirador de Genaro, de quem…

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