Artigo: Aires, o Eficiente Visual Congênito

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Aires, o Eficiente Visual Congênito

ARTIGO
José Moreira de Souza

A Comissão Mineira de Folclore celebra a cada ano no dia 19 de fevereiro sua caminhada rumo ao centenário. São anos de luta pelo saber excluído.

É momento de convergir nossa atenção para uma pessoa iluminada, excepcionalmente iluminada. Digo de Aires da Mata Machado Filho.

Atribuo ao menino Aires todos os méritos por haver nascido com o que chamamos de portar dificuldades visuais. Aires teve um Pai Augusto Aires, no pleno sentido de Aires e de Augusto. Foi com o Pai que aprendeu a ler e escrever antes de ingressar na escola. Na escola, sua tia Eponina escrevia na lousa os pontos em letras garrafais adequadas à condição do aluno.

Logo em seguida, Aires aprendeu a ler com as pontas dos dedos. Dispensava a visão. Com domínio do sistema Braille, o jovem se matriculou no Instituto Benjamim Constant no Rio de Janeiro onde cursou o equivalente ao nível médio atual. Diplomado, eis Aires pleno de habilidades para lidar com os “cegos” do Instituto São Rafael em Belo Horizonte.

Tão logo pode aperfeiçoar o contato com o mundo, o jovem Aires se determinou diretrizes de comunicação:
1.Convocar pessoas de boa vontade para compreenderem ações adequadas à superação das dificuldades de interpretar o mundo orientadas pela visão. Surge desse modo, em 1931 sua primeira obra Educação dos Cegos no Brasil. É a socialização dos próprios conhecimentos a partir da vivência de 22 anos de ler o mundo com os dedos. Nessa obra, o autor conclui com proposta de uma política de universalização da educação para os cegos em todo o território nacional. Há propostas pioneiras do que se chama, hoje, de educação inclusiva: “Enquanto esse sistema educacional não estiver estabelecido em todas as unidades da Federação, todas as escolas deverão ser franqueadas a qualquer cego brasileiro, devendo o Governo de seu Estado natal custear as despesas de sua viagem até a escola mais próxima.”
2.Estudar com atenção a terra que o viu nascer; sua São João da Chapada e, por extensão, a terra de seus pais, Diamantina. Desse empenho brota a obra pioneira O Negro e o Garimpo em Minas Gerais iniciada em 1929 e publicada em 1942 por uma editora de alcance nacional.
3.Atento aos ao Movimento Modernista, Aires se dedica à linguagem e aos processos históricos. Tão logo se funda o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico nacional, Aires é convidado por Rodrigo Melo Franco de Andrade para elaborar relatório sobre o Patrimônio de Diamantina. Desse amplo estudo surge Arraial do Tijuco: Cidade Diamantina Publicada em 1945.
4.Chamar a atenção do mundo para os instrumentos que favorecem a comunicação. Esta mensagem sintetiza a pregação pelo exemplo: “Ouvindo, aprende-se muito mais do que vendo. O ouvido é mais intelectual do que a vista, porque a audição leva ideias ao cérebro, e os olhos levam imagens.” A atenção para as janelas para o mundo o faz publicar em 1980 O Caso de Helena Keller - Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980. Obra que convoca o leitor a compreender a pergunta: como as assim chamadas deficiências mesmo as mais profundas não fecham todas as janelas para o mundo.?

Quero defender que a Comissão Mineira de Folclore não encontraria alguém mais genial do que Aires da Mata Machado Filho para reunir ao longo do ano de 1948 outros 27 companheiros para fundar essa associação.

Segundo a carne, nasci de Augusto Aires da Matta Machado e de Maria Flora de Godoy da Matta Machado, a 24 de fevereiro de 1909, em Diamantina. Teria sido em Sabará, se minha mãe, no oitavo mês, não cismasse de ir para onde estava a dela. A premonição dessa primeira viagem - parte de trem e vinte e cinco léguas a cavalo - prendeu-me à terra: moro em Belo Horizonte, mas vivo em Diamantina. Por serem primos os pais, dizem os médicos, o menino trouxe catarata congênita e atrofia de nervo óptico.

Pelo amor, tornei a nascer em 25 de março de 1940, quando casei com Maria Solange Mourão de Miranda. Devo-lhe muito, muito. Além do mais, dá-me força para vencer a rêmora, que me dificulta a navegação.

Fui para a escola já sabendo ler e escrever, graças a meu pai. O curso primário, onde aprendi o que a curiosidade insaciável procura ampliar e aprofundar todos os dias, eu o devo a Eponina da Mata Machado, extraordinária professora que escrevia os "pontos", em letras graúdas, para a fraca visão do aluno, seu sobrinho. O secundário, já na posse do sistema Braille, que me ensinou outro grande professor e amigo, João Gabriel de Almeida, pude fazê-lo no Instituto Benjamim Constant para cegos, no Rio, onde me diplomei em 1927.

Em seguida a conferência, lida perante o presidente Antônio Carlos, no Instituto São Rafael, que o idealismo e a situação do jovem ajudaram a erguer, entregaram-me turma de primeiras letras que levei, depois como professor de Português, até à formatura.

Entrementes, lecionei Português em casa, na residência dos alunos; Português e Literatura, no Instituto de Educação; Folclore Aplicado nos Cursos de Treinamento da Fazenda do Rosário e no Instituto Superior de Estudos Rurais, que organizei com Gustavo Lessa Filho e Helena Antipoff; finalmente, com o título oficializado de Doutor em Letras e Bibliografia Filológica e Literária, na cátedra de Filologia Românica da Faculdade de Filosofia e Letras, mais tarde incorporada à UFMG, de que sou Professor Emérito desde 1979, e na cátedra de Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia "Santa Maria", hoje integrada na Universidade Católica. Co-fundador dessas duas faculdades, também o fui da Faculdade de Filosofia e Letras, em Diamantina, que dirigi, e onde fui titular de Língua Portuguesa e Linguística Geral.

Na administração pública, exerci os cargos de Chefe de Redação no antigo Conselho Administrativo do Estado, Chefe de Gabinete na Secretaria do Interior e Justiça, colaborador do Centro de Pesquisas Educacionais, chefe do Serviço de Orientação Técnica do Ensino da Língua Portuguesa, assessor, na Secretaria de Educação. Faço parte do Conselho Estadual de Cultura, desde a sua criação, e representei a comunidade no Conselho Universitário da UFMG.

Jornalista, desde 1928. Nesse ano, saiu o meu primeiro artigo no Diário da Manhã, e o segundo, no Minas Gerais, onde me aposentei como redator, cabendo-me as funções de editor da seção Minas Eterna, de editorialista e de um dos fundadores do Suplemento Literário, de cuja primeira comissão diretora fiz parte. Co-fundador de O Diário e de Folha de Minas, onde inseri sueltos e artigos assinados, colaborei em outros jornais e revistas: de Belo Horizonte - Diário de Minas, Correio do Dia, Surto, Mensagem, Revista de Estudos Brasileiros; do Rio - Diário de Notícias, Jornal do Comércio, Boletim de Ariel, Revista do Brasil, Cultura e Política; de São Paulo - O Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Folha de São Paulo, Arquivo Municipal; de várias folhas de capitais do País, mediante cadeia de colaborações. Em 1933, inventei a coluna de jornalismo gramatical "Escrever Certo", no Estado de Minas. Aí, pela forma ao meu limitado alcance, tenho dado vazão ao espírito público, procurando ajudar os que não puderam ter escolaridade completa, aprendendo, por minha vez, com as dúvidas que os consulentes me transferem.

Dessa matéria, compõe-se grande parte da minha biografia. Consta sempre do meu livro mais recente. O primeiro, Educação dos cegos no Brasil, veio a lume em 1931. Assinalaram o cinquentenário o Prêmio "Machado de Assis", da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Fernando Chinaglia a Personalidade Cultural do Ano da União Brasileira de Escritores, além de outras homenagens: do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, em sessão especial; da Academia Municipalista de Letras, cuja contribuição o Suplemento Literário do Minas Gerais publicou; do Conselho Estadual de Cultura, que dedicou ao evento número especial de sua revista.

Fui eleito para a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais. Deu-se o meu nome ao prêmio que distinguiu o arquiteto vencedor, em concurso para o projeto do novo edifício da Casa do Jornalista.

Pioneiro de programa cultural pelo rádio, na Guarani, em 1936, produzi por vinte e quatro anos, na Inconfidência, a partir de 1937, vários outros; sucessivamente: "Crônicas Leves", "Vultos e Fatos de Nossa História", "Consultas de Linguagem".

Educação dos cegos no Brasil foi o primeiro livro publicado, em obediência ao acordo luso-brasileiro de 1931. Divulguei esse sistema em brochura, como em aulas ministradas a professoras primárias e funcionários da Secretaria do Interior e Justiça. Pela indicação de Afonso Pena Júnior, colaborei no "Vocabulário Oficial" de 1943, da Academia Brasileira. A convite de Antenor Nascente, integrei comissão assessora da Câmara dos Deputados, para o projeto de que resultou a lei simplificadora da acentuação gráfica. Fui encarregado da revisão linguística do projeto de Código de Processo Penal pelo Ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel.

Pertenço às seguintes instituições culturais: Academia Brasileira de Filologia, Sociedade Brasileira de Antropologia, Sociedade Brasileira de Folclore, Academia Carioca de Letras, Academia Mineira de Letras, Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Associação Mineira de Imprensa, Sindicato dos Jornalistas Profissionais, Comissão Mineira de Folclore, de que fui presidente. Além da láurea maior da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, a mais importante instituição cultural do País concedeu o Prêmio 'João Ribeiro' (Filologia e Folclore) a O negro e o garimpo em Minas Gerais, enquanto Crítica de Estilos e Linguística e Humanismo, outros livros meus devidamente inscritos, receberam o Prêmio "Cidade de Belo Horizonte".

Entre as condecorações recebidas, mencionem-se a Grande Medalha da Inconfidência e a Comenda do Infante Dom Henrique.

Aposentei-me na UFMG em 1965. Com alguma tristeza: aspirava à cadeira de Linguística Geral, que me foi negada. Também, nunca poderia aturar o terrorismo intelectual. Com pouca paciência e escassez de saliva para lecionar, hoje me limito a conferências encomendadas e alguma tarefa na Faculdade de Letras, de cuja congregação tenho o direito de participar como Professor Emérito. Autodidata, acredito mais no aprendizado que no ensino; sempre mantive dúvidas quanto à eficácia do meu. E todavia, não posso negar a fé na educação. Confesso o prazer de encontrar pessoas que se apressam em declarar a sua condição de antigos alunos.

A experiência desses últimos anos de editorialista do Estado de Minas, que me readmitiu depois do aposentado, faz-me sentir, mais vivamente que antes, a significação singular da profissão. Para até discutir com outros as ideias que eu mesmo defendo. Apreendo a influência da comunicação imediata. Esse é o privilégio do anonimato jornalístico.

Este é Aires dizendo de si mesmo - Coisa rara! Aires é pessoa que cuidou, ao longo de uma curta vida, - faleceu tragicamente na BR-040 aos 76 anos -, de ultrapassar todas as condições que lhe limitavam interpretar plenamente a vida.

Alguns depoimentos sintetizam o percurso de Aires.

Ele já era conhecido em todo o Brasil, quando o vi certo dia dobrando a esquina da Rua Professor Magalhães Drummond em direção à, então, Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de Minas Gerais. Pela primeira vez pude admirar Aires em pessoa. Não tinha acompanhantes, não usava nenhuma bengalinha branca. Algumas alunas reclamavam de suas aulas, por serem muito monótonas. Imagino, hoje, que exigiam do professor uma entonação acompanhada de gestos. Algo como aula espetáculo. Sei, hoje, mais do que antes, que Aires valorizava a audição. Saber ouvir, para ele, era o valor maior da comunicação.

Imagino que, depois disso, ele se dedicou mais atentamente aos múltiplos processos de comunicação: como desenvolver o conhecimento a partir do paladar e da degustação; como interpretar o mundo pelo tato ou pelo olfato. Ou como construir o mundo a partir da pura e absoluta introspecção. Imagino mais. Penso que Aires se inquietava com a ênfase aos sentidos celebrada, venerada e adorada como Deus Supremo da Modernidade. Mais ainda com o mundo televisivo. Ao “Nada pode ser entendido sem que antes tenha passado pelos sentidos”, certamente, Aires insistia no preceito: “a não ser a própria capacidade de entender e interpretar o que se sente”. Vivi apenas uma vez essa mensagem que para ele era dogma: “você não sabem interpretar o que vem pelo ouvido porque somente interpretam o que é alcançado pelos olhos.” Será a especialização das interpretações a partir de um sentido dominante: “No mundo tudo depende do olhar; tudo depende do ouvido, tudo depende do olfato, tudo depende do toque, tudo depende do paladar” como se o interpretar se pudesse dividir em pedaços sensoriais que levará Aires a publicar, em 1980 sua análise do caso Helena Keller, o qual completa o ciclo iniciado em 1934 com a tradução da obra de Eduardo Claparede Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental.

Inúmeros depoimentos de pessoas que conviveram com Aires reforçam a convicção de que Aires se orientava espacialmente sem uso da visão.

Francisco Iglésias, após repetir encantado o poema de Carlos Drummond de Andrade – “Oh!, Aires dos Ares Bom!” – declarou:
- Fomos a Diamantina. Aires nos levou ao alto do cruzeiro da Serra onde se contempla toda Diamantina. De lá, ele nos apontava com precisão cada lugar e narrava as marcas desses locais. A Grupiara, o “Alto do Poeira”; “a Casa da Glória”; “o Arraial dos Forros”; “a Palha”, “o Jogo da Bola”. E ele na via nada!

Domingos Diniz:
- Fui algumas vezes com Aires a Diamantina. Ele dizia: “Aqui posso andar com segurança. Conheço cada pedra de cada rua. Estou em casa.”

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